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Quarta, 06 Abril 2022 16:08

A guerra pela verdade, as plataformas digitais e a instrumentalização da ciência

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O Blog CIÊNCIA E MATEMÁTICA do O GLOBO publicou na segunda-feira 4/4/22 o artigo - A guerra pela verdade, as plataformas digitais e a instrumentalização da ciência .  Neste texto, Thaiane Oliveira, Laura Graziela e Reynaldo Aragon discutem a instrumentalização da ciência e a disputa pela verdade no contexto de guerra de narrativas sobre a guerra da Rússia nas plataformas digitais.

Para ler acesse o link https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/guerra-pela-verdade-plataformas-digitais-e-instrumentalizacao-da-ciencia.html ou leia abaixo.

 

CIÊNCIA & VERDADE

A guerra pela verdade, as plataformas digitais e a instrumentalização da ciência

 

Vivemos hoje uma guerra. Mas não se trata de uma guerra estritamente militar, envolvendo a OTAN e seus intermináveis tratados de “paz”, que desde os anos 2000 tem promovido inúmeras operações militares em nome da “democracia”, desde que esta seja nos moldes do Atlântico Norte. Na verdade, trata-se de uma guerra que visa atacar a liberdade de informação e se vende em nome da “verdade”, para se combater um inimigo de difícil definição: a própria informação. Sob esta agenda de guerra contra a informação em nome da “verdade”, se suspende a racionalidade e abre-se margem para que perseguições e censuras ocorram, e assim como em outras guerras bélicas, debaixo de uma bandeira evasiva que os interventores chamam de democracia. 

Com a aproximação das eleições de 2022, um assunto até então engavetado voltou a ser debatido com intensidade, sobretudo após a decisão do ministro do STF, Alexandre de Moraes de  bloquear o Telegram no país: o Projeto de Lei das Fake News (PL 2630/20). O ministro do STF determinou ao Telegram o cumprimento de algumas pendências, dentre elas, a informação das providências adotadas para o combate à desinformação e à divulgação de notícias fraudulentas, incluindo as punições previstas para os usuários que incorrerem nas mencionadas condutas. Diante dessas exigências, a pergunta a ser feita é: cabe às empresas de tecnologia o papel de punir quem divulga desinformação? 

Para entender a dificuldade de definir o que está sendo considerado como desinformação, voltemos às medidas de controle sobre a informação ocorridos nos últimos dias em função da guerra da Rússia contra a Ucrânia - ou contra a OTAN. Desde que o início da ocupação russa  à Ucrânia começou, plataformas de mídias sociais no ocidente têm atuado explicitamente em impor sanções a canais vinculados às estatais russas, usando a visibilidade e monetização como munições a serem empunhadas nas trincheiras digitais. A Meta Platforms, proprietária do Facebook e Instagram, anunciou que rebaixaria o conteúdo das páginas da mídia estatal russa, assim como links para seus sites, configurando o algoritmo para dificultar o acesso aos conteúdos russos em todo o mundo. Também passou a colocar notificações e avisos aos usuários que tentarem compartilhar links para páginas do Estado russo. Procedimento similar foi feito pelo Twitter. O YouTube decidiu bloquear os vídeos publicados pelos meios de comunicação estatais da Rússia no mundo inteiro, como Russia Today (RT) e Sputnik. A plataforma já havia desmonetizado os canais russos e suspendido a compra de publicidade digital no país, além de ter restringido as recomendações algorítmicas de canais como Rússia 24, TASS, RIA Novosti. O ministro da Transformação Digital da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, afirmou que entrou em contato com o Youtube para “ajudar os russos e o mundo a saberem a verdade.”

Ora, nesse contexto, como é possível se falar em "nome da verdade"? Torna-se importante resgatar o que Foucault, em a Microfísica do Poder, classifica como regime de verdade. Mais do que uma disputa em torno do que seria “verdade”, o filósofo chama a atenção para o conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder. As plataformas digitais ao impedirem a circulação dos canais de mídia russos, definem e se legitimam como detentoras do poder para decidir a verdade. Em nome da verdade, se consideram autorizadas a estabelecerem a censura prévia sobre a mídia russa, negando-lhes o direito de exporem o ponto de vista sobre os fatos, enquanto ao mesmo tempo se instiga o público ocidental a atacar e repudiar não apenas o exército e o próprio chefe de estado russo, mas toda a população russa, sua história, cultura e sociedade? Será que não estamos perigosamente diante daquilo que George Orwell previu em seu livro 1984, quando descreveu a novilingua? 

Sendo a verdade um instrumento de poder, que organizações sociais estão empunhando a guerra informacional na disputa pela verdade? Acusa-se o governo Putin de totalitário. No entanto, o próprio Ocidente em bloco age totalitariamente, através de empresas multinacionais de tecnologias de informação e com apoio de instituições intersticiais, que atuam na interface entre o público e o privado, como fundações filantrópicas e Think Tanks, que juntos atuam no debate sobre políticas públicas voltadas à informação. Sob esta agenda de guerra informacional sobre a verdade, estas instituições intersticiais têm exercido papel central nos países latino-americanos na definição de agendas e caminhos para o combate à desinformação, atuando diretamente no regime democráticos desses países, diante de um cenário de deslocamento do centro dinâmico do Ocidente para o Oriente que se manifesta na guerra da Rússia contra a Ucrânia e no fortalecimento econômico, científico e tecnológico de países asiáticos, sobretudo China. E é através destas instituições intersticiais que o conhecimento científico tem sido cada vez mais instrumentalizado. Essa instrumentalização se dá de diferentes formas: seja no financiamento de pesquisas alinhadas a valores compartilhados pelas instituições intersticiais, seja através da distribuição de selos de confiança para aquelas iniciativas que seguem cartilhas sobre a verdade promovidas por elas, ou ainda fornecem indicadores de transparência, accountability e confiança a partir de matrizes e modelos desenvolvidos pelas mesmas. 

Por fim, instrumentalizam a ciência para fazer lobby junto à esfera política para acatar as demandas das plataformas com argumentos frágeis como a necessidade de flexibilidade para agir na remoção de conteúdo nocivo, sem retaliação, caso a justiça determine ação imprópria da plataforma, sob o argumento de que sem essa liberdade por parte das empresas de tecnologia,“o ambiente on-line fica mais desprotegido do discurso de ódio e da desinformação” e isso "representa uma potencial ameaça para a Internet livre, democrática e aberta que conhecemos hoje”, segundo carta publicada pelas mesmas. No entanto, legitimam condutas cerceadoras sobre a noção de verdade não apenas contra os russos, mas os próprios cidadãos ao privá-los de informações que os permitam fazer seus julgamentos de forma mais democrática. Ao se exigir que as plataformas sejam responsáveis por punir os usuários que produzirem ou disseminarem desinformação, abre-se também o precedente para que estas empresas que já dominam grande fatia da internet tenham, cada vez mais, autonomia para se colocarem acima dos aparelhos estatais e de governo, e definirem o que deve ser visto ou compartilhado e o que é considerado verdade, mentira ou desinformação. 

Thaiane Oliveira e Laura Graziela Gomes são pesquisadoras do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT-InEAC – www.ineac.uff.br), e Reynaldo Aragon Gonçalves é doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação e pesquisador em formação do INCT-InEAC.

 

 

 

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