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Quinta, 17 Junho 2021 16:54

Nota em homenagem a Gláucio Ary Dillon Soares: uma perda, um legado

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Nota em homenagem a Gláucio Ary Dillon Soares: uma perda, um legado

 

 

Mais uma triste notícia nesse contexto atual já tão difícil.   

Infelizmente, o professor e sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares faleceu nesta segunda-feira (14/06), aos 86 anos. Internado desde 29 de maio, por muitos fatores que fragilizavam sua saúde. Sempre muito forte, lutava contra um câncer agressivo diagnosticado há pouco mais de 25 anos. Em 2018 sofreu um AVC. E foi acometido pela COVID-19 há pouco tempo, fato que o levou para internação.

Foi um grande professor e motivador não só na minha caminhada acadêmica, mas de vários outros colegas do campo acadêmico, incluindo as dezenas de seus orientandos, colegas de profissão e leitores dos seus trabalhos, no Brasil e no exterior. Nossa convivência, para além dos muros da universidade, se deu com muitos encontros em sua casa e no “bar escritório” - apelido que dávamos a uma pizzaria que ficava quase ao lado da instituição que ele lecionava, o Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) - sempre fazendo da sua orientação um encontro quase familiar.

Tive a honra de ser o último orientando dele, no mestrado e no doutorado em sociologia no IESP/UERJ. A análise de fluxo de crimes, dialogando a sociologia e antropologia, foi um grande ensino e estímulo dele. Algo bem incomum e ímpar       que gerou uma parceria entre Gláucio, eu e o professor, e antropólogo, Roberto Kant de Lima, da Universidade Federal Fluminense, me proporcionando um diálogo interdisciplinar e interinstitucional. Isso foi de suma importância para mim, para descontruir a normatividade e ensino doutrinário da minha formação original em Direito, permitindo-me enxergar o campo jurídico como um fenômeno social.

E dessa parceria foi possível produzir trabalhos empíricos que permitiram – e permitem – analisar o funcionamento das instituições policiais e judiciais na administração de conflitos de crimes, problematizando a forma de categorização e organização dos registros institucionais em forma de dados informatizados, a exemplo do que faz o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para fins de construção de seus relatórios anuais intitulados “Relatório Justiça em Números”. Tais registros explicitam, por exemplo, uma lógica corporativa de gestão dos processos judiciais, construindo-se números publicizados de interesse puramente interno, corporativo. Seus índices, tais como taxas de congestionamento processual, indicadores de produtividade dos magistrados e indicadores de produtividade dos servidores da área judiciária ainda possuem poucos detalhes de diagnóstico, avaliando apenas o movimento quantitativo de processos judiciais, o número de funcionários e orçamento dos fóruns e tribunais em cada Estado, por ano, sem considerar os tipos de demanda, as formas de administração dos conflitos, o perfil das partes conflitantes e demais possibilidades de registro de micro dados. As metas corporativas quantitativas se sobressaem sobre todos os outros aspectos.

As contribuições dessa nossa parceria foram muito profícuas nesse sentido, em analisar como os registros - e os não registros, percebidos unicamente por meio de pesquisa etnográfica - quantificados pelas instituições judiciais podem revelar mais sobre suas próprias práticas internas do que sobre os fatos sociais os quais essas instituições pretendem classificar, codificar e quantificar. Tais questões ainda são fortes empecilhos para a elaboração de categorias, teorias e conceitos próprios para o contexto brasileiro. Ainda pensamos “o Brasil a partir de conceitos e categorias criados para descrever fenômenos de países industriais; não pensamos a partir de conceitos elaborados para descrever fenômenos do Brasil”. “A isso eu chamo de colonialismo teórico”, desdobrando-se em um verdadeiro “calcanhar metodológico” entre nós, como já escreveu e sempre alertava Gláucio.

É difícil enumerar e resumir todas as contribuições de Gláucio Soares para a ciência social brasileira. Seus inúmeros escritos e pesquisas perpassam desde o papel das elites nas transições democráticas, a análise das determinantes dos suicídios, até a análise de fluxo de homicídios dolosos no Brasil e em perspectiva comparada, dentre várias outras análises na Criminologia e na Sociologia Política, atuando principalmente nos temas da violência, homicídios, democracia e regimes ditatoriais.

Há incontáveis publicações paradigmáticas - em artigos, livros publicados e organizados, inclusive com importantes parcerias em coautoria - tanto para a sociologia quanto para a ciência política brasileira, como, por exemplo: “O charme discreto do socialismo moreno”; “Dois Lulas: a geografia eleitoral da reeleição”; “21 anos de autoritarismo”; “A democracia interrompida”; “O calcanhar metodológico da ciência política no Brasil”; “A criminologia e as desventura do jovem dado”; “As vítimas ocultas da violência no Rio de Janeiro”; entre muitos outros.

Particularmente, o livro “Não Matarás: desenvolvimento, desigualdade e homicídios” foi marcante para mim. Nessa obra, Gláucio reúne suas pesquisas e reflexões realizadas ao longo de 40 anos de trajetória acadêmica sobre análise de fluxo e determinantes das mortes violentas. A influência dessa publicação é notória em minha caminhada e produção acadêmica em que analisei o fluxo dos acordos ao longo das etapas da conciliação, transação penal e Audiência de Instrução e Julgamento no Juizado Especial Criminal, em minha dissertação de mestrado que defendi em 2014 (com publicação posterior em livro, em 2017); e na análise de fluxo e das determinantes para a investigação de homicídios dolosos ao longo das etapas do registro de ocorrência policial, da instauração do inquérito policial, da denúncia do Ministério Público, da primeira e da segunda fase do Tribunal do Júri, na minha tese de doutorado, defendida em 2018.   

Para um pouco além da vida acadêmica, vale mencionar que Gláucio mantinha um blog, há muitos anos, como um diário público de suas inquietações, lutas, conquistas, reflexões e percalços não só contra o câncer como também perante adversidades do cotidiano, sempre com a reflexão de um exímio cientista social, mas com a sensibilidade de escrita de um poeta, com uma escrita lírica e compreensível a todos. A última atualização do blog foi em 23 de junho de 2020. É emocionante, revigorante e vale a pena ser lido: https://vivaavida.wordpress.com . Impressiona a quantidade de visualizações que há nesse blog e como pessoas foram impactadas positivamente por esses escritos.

Teremos que seguir em frente com mais esta perda, neste momento duro. Perdemos um grande mestre, cientista social e pessoa querida. Mas com um grande legado para muitos.

 

 

Michel Lobo Toledo Lima.

Sociólogo. Doutor e mestre em sociologia pelo IESP/UERJ. Pesquisador do INCT-InEAC. Professor visitante e pesquisador de pós-doutorado FAPERJ nota 10 no PPGD/UVA.

 

 

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